24 outubro, 2007

A Poesia de novos talentos - Paulo de Sousa Alcoforado

A Freelance News (FN) entrevistou um jovem escritor, autor do livro "Reticências...". Em discurso directo, Paulo contou-nos o porquê do livro, o porquê do seu título, ou alguns outros porquês...

De seu nome Paulo de Sousa Alcoforado. Nascido, reza o próprio, numa noite de Inverno, corria o ano de 1981. O seu interesse, desde cedo se voltou para uma compreensão mais profunda das diferentes pessoas e contextos que entravam na sua vida, procurando perceber não só comportamentos visíveis e significados, mas também vivências pessoais e emoções. Com base nesse interesse veio a licenciar-se em Psicologia, pela Universidade do Porto (UP). Na busca pela essência visível e invisível de cada indivíduo, o gosto pela escrita foi inevitavelmente crescendo…, diz Paulo, em ramos de sentimento, o fruto de diferentes paixões. Actualmente, o seu percurso como escritor e enquanto pessoa vai sendo construído no dia-a-dia, junto de seres vivos, artefactos e lugares, tanto do quotidiano como do ocasional, tal como nos contou na primeira pessoa:

(FN) - Porquê Reticências?
(PSA) - É um título que está bastante ligado ao conteúdo, no sentido metafórico, e que em certa medida enquadra a sua essência. Numa descrição superficial, é um livro sobre a busca por nós próprios e por um subtil sentimento de proximidade... sobre a ilusão e a desilusão no muitas vezes complexo processo de construir uma vida no plano mental e sentimental, para além do que é meramente material. Fala sobre a comunicação nas entrelinhas que é feita na tentativa de construção de um percurso a dois... sobre tudo que é dito, e sobre tudo o que fica por dizer.

(FN) - Fale-nos do lançamento do livro...
(PSA) - O livro foi lançado recentemente, no dia 5 de Outubro de 2007, num evento da editora que decorreu no bar Blá Blá. Entretanto, teve já algum contacto com o público, tendo por exemplo, sido feita uma apresentação na Fnac do Gaia Shopping, no dia 19 do corrente mês.

(FN) - Em termos de número de exemplares, como tem sido a receptividade dos público?
(PSA) - Para já o livro é recente, começando agora a estar em mais locais de venda presenciais e on-line. Tem sido divulgado não apenas por mim e pela editora, mas também espontaneamente pelos próprios leitores, que têm sido fantásticos! Portanto, para já posso dizer que tem sido bem recebido pelas pessoas, o que é muito gratificante.

(FN) - Como surgiu a ideia de escrever um livro de poemas?
(PSA) - Esta ideia surgiu de um gosto pela escrita e pela leitura, em geral, aliado a uma busca por uma compreensão mais profunda das vivências e contextos que nos rodeiam no quotidiano. Tendo o hábito de escrever, achei que seria interessante a algum ponto dar a conhecer um pouco desses trabalhos. Interesso-me também por outros estilos de escrita, mas a poesia foi o ponto de partida.

(FN) - Há quanto tempo os seus poemas estavam a 'ganhar pó' na gaveta?
(PSA) - Esta é uma questão engraçada, a do "escrever para a gaveta"... costuma ser um tema de conversa, até mesmo entre autores já publicados. Eu acho que há outras formas de ver este aspecto: eu diria que se resume essencialmente à disponibilidade da pessoa em partilhar com os outros (o grande público) aquilo que escreve. Nem toda a gente está disposta a partilhar algo que é muitas vezes pessoal (seja auto-biográfico ou não) com o resto do mundo. Na maior parte dos casos, a escrita é em essência um acto relativamente individual e pessoal. Mas se se escolher o caminho da partilha, é preciso ter em mente que a dada altura será preciso "dar a cara" pelo que se escreve, e estar envolvido activamente na divulgação. A gaveta é um local de treino e aperfeiçoamento seguro... mas a verdade é que a escrita não se esgota no acto de escrever, e quem quiser trilhar esse caminho tem de ter consciência que terá de dar o primeiro passo no sentido de "abrir a gaveta ao mundo", mesmo que parcialmente, para o conseguir fazer.

Portanto, uma vez tomada essa decisão, com resolução, chega a altura de se dar a conhecer, colocar os poemas onde as pessoas os possam ler, estar preparado para ter feedback (quer seja positivo ou negativo), e a partir daí estar disposto a aperfeiçoar-se. Isto porque na escrita, tal como na vida, uma recusa em evoluir pode significar o risco de estagnar.

Felizmente, assim que tomei essa decisão de dar a conhecer o meu trabalho não tive de esperar muito, tive a sorte de ter tido respostas e reacções relativamente rápidas. Sei que isso muitas vezes não acontece, no panorama editorial português, podendo haver períodos de espera de um ou mais anos. Em Portugal existem escritores de talento que a dada altura se dispõem a divulgar o seu trabalho, mas que acabam por permanecer no anonimato por questões de outra ordem, acabando eventualmente por desistir (para prejuízo de todos nós). O empenho na divulgação e evolução, e a perseverança, assumem assim uma importância fundamental, na minha opinião.

(FN) - Tem planos para lançamentos além fronteiras?
(PSA) - A intenção existe, sem dúvida! Ainda é no entanto prematuro falar de planos concretos. No meu caso, gosto de escrever em português e também em inglês, como se pode constatar neste meu primeiro livro, exactamente por considerar que a poesia vive para além de qualquer fronteira desde que a barreira da linguagem e cultura não sejam impeditivas.

Em Portugal, há muitas pessoas que gostam de poesia, mas o mercado apesar de estável ainda é pequeno, pelo simples facto que o orçamento de cada um é geralmente aplicado em áreas mais pragmáticas ou imediatas. Existem também outras formas de cultura que estão bastante mais institucionalizadas, estando por vezes a leitura relegada para segundo plano. O lançar além-fronteiras permite pelo menos dar a conhecer o que se escreve a um leque mais abrangente de pessoas que possam partilhar desse gosto pela leitura.

O meu blog 'Reflexos de Meia-Noite' (http://www.reflexosmeianoite.blogspot.com/) é um primeiro passo intencional nesse sentido, contando já com alguns leitores tanto de Portugal como do Brasil.

(FN) - E planos para outro livro de poemas?
(PSA) - Sem dúvida. Desde o princípio que vejo este primeiro livro como um começo, e não tanto como um objectivo final. Tanto quanto o tempo o permite, esse plano está já em pleno andamento :) A partir daí, será o recomeçar de um esforço que esteve presente já para a concretização do primeiro livro.

(FN) - Ainda em matéria de planos e projectos, gostaria de escrever algo para além da poesia?
(PSA) - Gostaria bastante. Para além de poesia, escrevo também pequenos textos de prosa poética e contos breves. Em geral, gosto de todas as aplicações da escrita, e de vários géneros literários. Assim que tiver disponibilidade, gostaria de abraçar outros géneros de escritas, mais extensos. O tempo nem sempre o permite, mas faz-se um pouco de cada vez (risos).


(FN) - O lançamento deste livro é um sonho tornado realidade?
(PSA) - Fiquei bastante contente, sem dúvida (risos). No entanto, não diria que o lançamento do livro é o cumprir de um sonho propriamente dito... vejo-o mais como um passo, um primeiro passo num caminho em construção, por oposto a um objectivo. Os sonhos encontram-se talvez mais à frente nesse caminho, mas sempre com o que vem a seguir em mente. Os sonhos vão-se construindo e renovando a cada dia!

(FN) - De todos os poemas que compõe o teu livro há algum de que goste especialmente?
(PSA) - Isso poderia ser quase o equivalente de perguntar a um pai qual dos seus filhos prefere (risos). Mas falando a sério, como autor confesso um afecto especial por todos os textos, desde o mais simples até ao mais elaborado, por partilhar com eles o contexto no qual surgiram. Cada um tem para mim um significado especial. Assim, responderei a essa questão com uma escolha de qual se poderia aplicar melhor a este contexto... optaria por um excerto do único texto de prosa poética incluído, intitulado 'Metáforas ao Vento'.

Convidado pela FN a citar parte do seu poema de eleição, Paulo, termina a entrevista deixan-nos com "a reminiscência de uma Primavera que já vai por esta altura longe":

'"A Primavera havia finalmente chegado. Sentado na foz, neste velho banco de pedra próximo do oceano, as memórias pareciam sempre fluir como as marés de um oceano interminável. Uma leve brisa corria, transportando consigo o aroma do mar ao pôr-do-sol, em complemento do suave som da água salgada nas margens rochosas artificiais. Fim da tarde, mas quando estamos mergulhados em pensamento, o tempo parece sempre que ou pára ou voa num momento perdido."


Paulo de Sousa Alcoforado



Texto: Daniela Costa
Fotos: DR

3 Comments:

Vera said...

A entrevista está muito perto da perfeição, tanto pelo entrevistado como pela jornalista!
Gostei muito de conhecer um pouco mais do Paulo.
Muito sucesso para ambos!

Beijinhos

Conceição Bernardino said...

Paulo eu tive o privilégio de te conhecer pessoalmente na Fnac.
Mas já tinha percebido no site Luso-Poemas onde tu desabrochaste essa sensualidade e talento fenomenal para a escrita, que eras uma pessoa com muitas aptidões e uma delas é a tua arte de comunicares aos outros através das palavras o ser que és.
Beijinhos

Vanda Paz said...

Muito boa esta entrevista.

Parabéns e sucesso para o teu livro que vou querer ler.

Beijos

Vanda (Tália)